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Algumas Considera√ß√Ķes Acerca Da Globaliza√ß√£o
E O Discurso Sobre O Fim Do Estado-Nação

Tadeu P. A. Arrais

A globaliza√ß√£o √© um daqueles assuntos do qual, por diversos motivos e motiva√ß√Ķes, n√£o podemos escapar. De uma forma ou de outra estamos imersos sobre uma realidade que tem sido insistentemente adjetivada, nos mais diferentes dom√≠nios do saber, de globaliza√ß√£o. O debate se d√° tanto no dom√≠nio da experi√™ncia quanto no dom√≠nio conceitual e assim somos atingidos no cotidiano (quando observamos algumas justificativas sobre taxa de desemprego em cidades como S√£o Paulo ou mesmo Bras√≠lia ou adquirimos um produto made in China em um camelo no centro de Goi√Ęnia), na academia (teses e disserta√ß√Ķes, ensaios e teorias explicativas sobre suas conseq√ľ√™ncias) e nos meios pol√≠ticos (novas rela√ß√Ķes internacionais com a emerg√™ncia de novos atores como as ONGs e os organismos financeiros como o FMI e o Banco Mundial).

Em linhas gerais podemos verificar uma certa concord√Ęncia entre diversos autores em admitir que a globaliza√ß√£o (ou mundializa√ß√£o, como preferem os franceses) coincide com um conjunto de transforma√ß√Ķes contempor√Ęneas que atingiram o mundo nas √ļltimas tr√™s ou quatro d√©cadas, englobando os seguintes processos: o Transforma√ß√Ķes radicais no sistema produtivo fordista, com intensa especializa√ß√£o e flexibilidade no processo produtivo; o Avan√ßo na biotecnologia com implica√ß√£o direta na produtividade agr√≠cola; o Presen√ßa nos mais diversos segmentos da sociedade da tecnologia de comunica√ß√£o via redes de transmiss√£o de dados como a internet; influenciando o modo de as pessoas se relacionarem umas com as outras, seja atrav√©s do consumo ou dos la√ßos de solidariedade;
o Crescente internacionalização da economia e fortalecimento do sistema financeiro mundial, com predomínio das praças de Nova York, Tóquio e Londres;
o Aparecimento de novos atores no cen√°rio internacional como as ONGs;
o Desmantelamento do Estado do bem-estar-social e ‚Äútriunfo‚ÄĚ da ideologia neoliberal;
o Maior conscientização da idéia de finitude dos recursos naturais e, ao mesmo tempo, proliferação de um discurso fatalista sobre a socialização dos riscos ambientais;
o Fortalecimento de uma rede de ‚Äúcidades globais‚ÄĚ de comando na economia mundial;
o Aumento da concentração de renda, do desemprego e da violência urbana em várias cidades do mundo;
o Intensa metropolização e mudanças no padrão cultural (hibridez) nos grandes centros urbanos; etc.

A maneira como compreendemos esses processos exige, para al√©m de uma op√ß√£o acad√™mica, uma postura pol√≠tica, na medida que nosso discurso pode ou n√£o revelar quest√Ķes fundamentais no nosso tempo. Dessa forma fazem Hirst & Thompson (1998) ao analisar a ret√≥rica da globaliza√ß√£o. Para esses autores (1998:11):

A ideologia da globaliza√ß√£o funciona, al√©m disso, como conveniente cortina de fuma√ßa. Os governos t√™m-se servido da globaliza√ß√£o para isentar-se da responsabilidade por tudo de negativo que acontece na economia, transferindo-a para o √Ęmbito de for√ßas supra-nacionais fora do seu controle.

Hirst & Thompson (1998) afirmam que a globaliza√ß√£o √© ‚Äúum mito que rouba ilus√Ķes‚ÄĚ. A globaliza√ß√£o funcionaria, nesse sentido, como √°libi para justificar o estado atual das coisas, colocando o mercado como esp√©cie de entidade metaf√≠sica, eximindo os governos de qualquer culpa e deslocando o foco de quest√Ķes fundamentais sobre suas op√ß√Ķes de desenvolvimento que atingem a todos n√≥s. Quem nunca ouviu dizer, por exemplo, que o desemprego, a viol√™ncia, a pobreza e at√© mesmo a guerra, s√£o problemas da globaliza√ß√£o? Outro autor que fala em ‚Äúmito da globaliza√ß√£o‚ÄĚ √© Fiori (2000). Segundo esse autor s√£o tr√™s os mitos da globaliza√ß√£o:

O primeiro de que a globaliza√ß√£o seria uma obra conjunta e exclusiva de transforma√ß√Ķes tecnol√≥gicas e for√ßas de mercado, uma nova realidade econ√īmica movida pela for√ßa material da expans√£o capitalista e, por isso, absolutamente necess√°ria e irrecus√°vel por qualquer governante dotado de um m√≠nimo de realismo e bom senso. O segundo, de que a globaliza√ß√£o seria um fen√īmeno universal, inclusivo e homogeneizador. E o terceiro, de que a globaliza√ß√£o promoveria uma redu√ß√£o pac√≠fica e inevit√°vel da soberania dos Estados nacionais, sem trazes problemas ou ser fonte de ingovernabilidade (2000:506).

Esse conte√ļdo mitol√≥gico e at√© mesmo metaf√≠sico da globaliza√ß√£o s√≥ aumenta nossa responsabilidade no sentido de entende-la. Beck (1999) elabora uma cr√≠tica ao predom√≠nio da dimens√£o econ√īmica da globaliza√ß√£o a partir dos conceito de globalismo. Segundo o autor, o globalismo:

Designa a concep√ß√£o de que o mercado mundial bane ou substitui, ele mesmo, a a√ß√£o pol√≠tica; trata-se, portanto, da ideologia do imp√©rio do mercado mundial, a ideologia do neoliberalismo. O procedimento √© monocausual, restrito ao aspecto econ√īmico, e reduz a pluridimensionalidade da globaliza√ß√£o a uma √ļnica dimens√£o ‚Äď econ√īmica -, que, por sua vez, ainda √© pensada de forma linear e deixa todas as outras dimens√Ķes ‚Äďrelativas √† ecologia, √† cultura, √† pol√≠tica e √† sociedade civil - sob o dom√≠nio subordinador do mercado mundial (1999:27).

Beck (1999) salienta a condi√ß√£o de irreversibilidade da globalidade e a possibilidade de romper com o ‚Äúglobalismo despolitizado‚ÄĚ, na medida que considerarmos outras dimens√Ķes da globalidade como estrat√©gia para fugir da metaf√≠sica do ‚Äúestado mundial‚ÄĚ e construir uma nova pol√≠tica, baseada em princ√≠pios da coopera√ß√£o internacional.

O importante quando tratamos de um conceito qualquer e especialmente um conceito como o de globaliza√ß√£o, √© saber que ele √© socialmente constru√≠do, tem ra√≠zes hist√≥ricas e determinantes ideol√≥gicos. Tratar um conceito como o de globaliza√ß√£o apenas na sua dimens√£o econ√īmica, antes de um caminho metodol√≥gico, indica uma op√ß√£o pol√≠tica que, pelo determinismo econ√īmico, pode mascarar outras dimens√Ķes (cultural e pol√≠tica) e at√© mesmo desviar da discuss√£o sobre os interesses presentes nesses conceitos. Procurando fugir um pouco da dimens√£o econ√īmica, Jameson (2000:12) escreve:

Acredito que a globaliza√ß√£o seja um conceito comunicacional, o que alternadamente mascara e transmite significados culturais e econ√īmicos. Temos a impress√£o de que existe redes comunicacionais mais densas e abrangentes por todo o mundo atual, redes que s√£o, por um lado, o resultado de inova√ß√Ķes not√°veis nas tecnologias comunicacionais de todos os tipos que, por outro, tem como base a tend√™ncia √† crescente moderniza√ß√£o em todos os pa√≠ses do mundo, ou pelo menos, em suas grandes cidades, o que inclui a implanta√ß√£o de tais tecnologias.

Entender a globaliza√ß√£o como ‚Äúconceito comunicacional‚ÄĚ torna poss√≠vel indagar sobre sua genealogia e o seu significado. N√£o significa, como alertou o pr√≥prio Jameson (2000), que a dimens√£o comunicacional dispense de se considerar outras dimens√Ķes, como a cultural e principalmente a econ√īmica. Na realidade n√£o haveria muitas raz√Ķes para acreditar que nessa discuss√£o podemos separar a dimens√£o econ√īmica da cultural ou mesmo da pol√≠tica, a n√£o ser que fosse por um exerc√≠cio puramente taxon√īmico, como o fez Vieira (2001) ao falar nas cinco dimens√Ķes da globaliza√ß√£o: econ√īmica, pol√≠tica, social, ambiental e cultural. Dif√≠cil pensar que o discurso de prote√ß√£o agr√≠cola em alguns dos importantes pa√≠ses europeus tenha como pano de fundo apenas o interesse cultural, em preservar, por exemplo, a culin√°ria francesa. O mesmo pode-se dizer da ind√ļstria cinematogr√°fica francesa ou mesmo indiana. A alta participa√ß√£o dos Estados Unidos na ind√ļstria cinematogr√°fica n√£o √© somente uma quest√£o estrat√©gica de desenvolvimento e afirma√ß√£o do seu modo de vida, mas, antes de tudo, uma quest√£o econ√īmica e comercial. O mesmo pode-se dizer do discurso que coloca o terrorismo como amea√ßa global. √Č como se todos os pa√≠ses, indiscriminadamente, fossem alvos potenciais de grupos ocupados em desestabilizar a ordem mundial. Bela justificativa que nasce, justamente, no discurso pol√≠tico dos dirigentes de pa√≠ses com EUA e Inglaterrra.

Al√©m das quest√Ķes econ√īmicas e tamb√©m aquelas ligadas ao discurso caduco da homogeneiza√ß√£o do planeta, uma outra discuss√£o torna-se central em qualquer reflex√£o sobre a globaliza√ß√£o. Trata-se do discurso que decreta o fim Estado-Na√ß√£o, seja como indutor ou mesmo regulador de uma economia nacional, mediador nas rela√ß√Ķes entre capital e trabalho, ou como respons√°vel pelo bem estar social, isso sem falar no seu papel na forma√ß√£o das identidades nacionais. O argumento √© que na cartografia mundo da modernidade os Estados-Na√ß√Ķes representavam espa√ßos fechados, ao contr√°rio de hoje, onde a no√ß√£o de fronteira perde a consist√™ncia como definidora do Estado-Na√ß√£o.
Ao caracterizar a globalização, Ianni (1999:35) escreve:

Aqui recome√ßa a hist√≥ria. Em lugar das sociedades nacionais, a ¬īsociedade global¬ī. O recome√ßo da hist√≥ria, ao que parece, mais uma vez procura anular o fragmento. A ‚Äúsociedade global‚ÄĚ como substituta natural da sociedade, ou melhor, das ‚Äėsociedades nacionais‚Äô.

Essa vis√£o n√£o √© un√Ęnime. De uma tacada s√≥, aquilo que segundo Hobsbawm (2002) tem uma inven√ß√£o recente, perde import√Ęncia. Trata-se de uma perspectiva global, pois envolve nesse discurso n√£o s√≥ o fim do Estado territorial, mas tamb√©m da na√ß√£o, das representa√ß√Ķes de um povo sobre seu territ√≥rio. Aquela ‚Äúconsci√™ncia coletiva‚ÄĚ a que se referiu Ortiz (1994), transforma-se, levando ao extremo o entendimento de Ianni (1999) numa esp√©cie de ‚Äúconsci√™ncia coletiva sobre o global‚ÄĚ.

De um lado a emerg√™ncia de uma cultura global e de outro de uma economia tamb√©m global sepultando um dos √ļltimos basti√Ķes da modernidade, isso, √© claro, se considerarmos a modernidade como um projeto acabado, perspectiva n√£o compartilhada por um autor como Berman (1986). Badie (1999) chega a falar em ‚Äúfim do territ√≥rio‚ÄĚ e Appadurai (1999) em uma cartografia ‚Äúp√≥s-nacional‚ÄĚ. Ambos argumentam que o principio westfaliano da territorialidade do Estado nacional que pressupunha o exerc√≠cio de poder sobre seu territ√≥rio e sua popula√ß√£o, fato que determinava a no√ß√£o de soberania, foi modificado substancialmente nos dias de hoje. Conforme Appadurai (1997:02):

A constitui√ß√£o do Estado-na√ß√£o pressup√Ķe isomorfismo entre povo, territ√≥rio e soberania leg√≠tima que se encontra amea√ßado pelas formas de circula√ß√£o de pessoas caracter√≠sticas do mundo contempor√Ęneo.

O autor localiza a crise do Estado-Na√ß√£o justamente no ‚Äúh√≠fen‚ÄĚ, o que nos leva a entender que a coer√™ncia territorial n√£o casa mais com a coer√™ncia cultural, √©tnica, ou seja, da na√ß√£o propriamente dita. O Estado-Na√ß√£o estaria em crise por pelo menos dois motivos: 1) a perda relativa de soberania, j√° que ela seria indispens√°vel para sua exist√™ncia; 2) pela perda da coer√™ncia cultural (salvo o artificialismo que esse express√£o denota) que unia a popula√ß√£o ao solo, para lembrar uma f√≥rmula bastante conhecida. Novamente a mobilidade √© chamada para refor√ßar o argumento sobre a perda de soberania. Appadurai (1997), a partir do conceito de ‚Äútranslocalidade‚ÄĚ, argumenta que o Estado perdeu o controle sobre o territ√≥rio, o que acarretaria, sem d√ļvida, numa perda de soberania. Por ‚Äútranslocalidade‚ÄĚ o autor compreende um vasto conjunto de pr√°ticas que vai desde o deslocamento de migrantes, passando pelas zonas de fronteira, campos de refugiados, at√© mesmo certas cidades integradas na economia mundial. A id√©ia √© que, em todas essas manifesta√ß√Ķes, encontramos pessoas e objetos deslocados dos seus contextos nacionais.

Badie (1995), numa visão mais economicista, também comunga da idéia que o aumento de mobilidade seja proporcional à diminuição do poder do Estado-Nação. Para esse autor (1995:159):

Ao princ√≠pio da territorialidade, o mundo das redes de rela√ß√Ķes op√Ķe um mundo totalmente diferente de articula√ß√£o dos indiv√≠duos e dos grupos. O primeiro esta fundado na contig√ľidade e na exaustividade, o segundo da rela√ß√Ķes libertas de constrangimentos espaciais.

Esse fato n√£o causa estranheza j√° que para Badie (1995:213): ‚ÄúA riqueza j√° n√£o vem do solo nem do subsolo, mas da mobilidade‚ÄĚ. Nesse argumento id√©ias presentes no voc√°bulo dos Estados territoriais como recurso, solo, fronteira, popula√ß√£o, infra-estrutura, perdem import√Ęncia, al√©m do que na an√°lise do territ√≥rio a import√Ęncia da dimens√£o zonal √© minimizada. Devemos lembrar que mesmo o principio da territorialidade westfaliana revelou diferentes graus de soberania, como ainda hoje. O que queremos dizer √© que a id√©ia de soberania territorial, especialmente nos dias de hoje, √© relativa, como sempre foi, isso porque o grau de desenvolvimento dos Estados-Na√ß√Ķes √© diferente e, n√£o raro, o desenvolvimento de uns depende da aloca√ß√£o de recursos (especialmente energ√©ticos) e jogo de for√ßa pol√≠tico-militar de tr√™s ou quatro na√ß√Ķes realmente soberanas. Nisso n√£o enxergamos tantas diverg√™ncias entre os imp√©rios coloniais e o imp√©rio da tr√≠ade, comandado pelos Estados Unidos da Am√©rica. No mundo de hoje a soberania de uns acarreta na perda de soberania de outros.

Como vimos, talvez o argumento mais forte sobre o fim do Estado-Na√ß√£o repouse na dimens√£o econ√īmica. Nessa interpreta√ß√£o o melhor representante continua sendo Ohmae (1996). Para esse autor o Estado-Na√ß√£o n√£o passa de uma ‚Äúilus√£o cartogr√°fica‚ÄĚ, testemunho de um mundo que n√£o existe mais. O desmantelamento das fronteiras nacionais mais uma vez √© evocado. A fluidez da ‚Äúind√ļstria‚ÄĚ, dos ‚Äúinvestimentos‚ÄĚ, dos ‚Äúindiv√≠duos‚ÄĚ e da ‚Äúinforma√ß√£o‚ÄĚ, sepultaram de vez o Estado-Na√ß√£o, fato compreens√≠vel, j√° que ele teria sido fruto ‚Äúirrelevante do acaso hist√≥rico‚ÄĚ (1996:XXI).

A justificativas de Ohmae (1996) s√£o contrariadas tanto pela an√°lise emp√≠rica quanto pela te√≥rica. Hirst & Thompson (1998), por exemplo, argumentam que o poder do Estados-Na√ß√Ķes ainda √© forte, especialmente numa economia altamente internacionalizada. Criticando a perspectiva de Ohmae (1996) esses autores escrevem (1998:272):

Essa nova ret√≥rica pol√≠tica √© baseada em um liberalismo antipol√≠tico. Liberada da pol√≠tica, a nova economia globalizada permite √†s empresas e aos mercados alocar os fatores de produ√ß√£o para benef√≠cio m√°ximo e sem as distor√ß√Ķes da interven√ß√£o do Estado. O livre com√©rcio, as companhias transnacionais e os mercados de capitais mundiais liberaram os neg√≥cios das restri√ß√Ķes das pol√≠ticas, e s√£o capazes de abastecer os consumidores mundiais com os mais baratos e eficientes produtos. A globaliza√ß√£o realiza os ideais de liberais do livre com√©rcio, como Cobden e Bright, dos meados do s√©culo XIX: ou seja, um mundo desmilitarizado, em que a atividade comercial √© fundamental e o poder pol√≠tico n√£o tem outra tarefa, sen√£o a de proteger o sistema de livre com√©rcio mundial.

N√£o podemos negar que nos mais de dois s√©culos de exist√™ncia o Estado-Na√ß√£o mudou bastante e que a vis√£o homog√™nea constru√≠da tanto no mundo capitalista quanto nas experi√™ncias ‚Äúsocialistas‚ÄĚ deve ser revista, especialmente pelo car√°ter conservador e repressor das minorias. A mudan√ßa foi tanto cultural quanto pol√≠tica e econ√īmica, o que culminou no fim do keyneisianismo e no Estado do bem-estar-social e a emerg√™ncia o neoliberalismo. Este √ļltimo, antes de ser uma op√ß√£o de desenvolvimento, aparece como panac√©ia e ideologia, fundado numa cr√≠tica distorcida sobre a incapacidade econ√īmica e de interven√ß√£o do Estado. Por esses e outros motivos Hirst & Thompson (1998) chamam a globaliza√ß√£o de ‚Äúmito que rouba ilus√Ķes‚ÄĚ. Em resumo esses mitos envolvem id√©ias que a economia atual √© mais internacionalizada que as precedentes, o que √© falso, especialmente se comparado ao per√≠odo de 1870-1914 e que existe um grande n√ļmero de empresas transnacionais, o que, segundo os autores, tamb√©m √© falso, especialmente se considerado que a maior parte das empresas tem uma base nacional, entre outros mitos. Ainda sobre a soberania, Santos (2000:77) escreve:

Ao contr√°rio do que se repete impunemente, o Estado continua forte e a prova disso √© que nem as empresas transnacionais, nem as institui√ß√Ķes supranacionais disp√Ķem de for√ßa normativa para impor, sozinhas, dentre de cada territ√≥rio, sua vontade pol√≠tica e econ√īmica.

Na verdade seria dif√≠cil pensar, seja pelo vi√©s econ√īmico (como unidade que regulamente as rela√ß√Ķes entre capital e trabalho e que ordena o territ√≥rio para os investimentos privados), pelo vi√©s jur√≠dico-administrativo (garantia de direitos individuais e coletivos, pacto federativo, etc) ou mesmo na pol√≠tica internacional (rela√ß√Ķes com outras na√ß√Ķes, aparelhamento militar, etc) em outra forma de organiza√ß√£o social, exceto quanto pensamos em teorias embrion√°rias e muito longe do nosso horizonte, como a ‚Äúauto-gest√£o‚ÄĚ. Alguns autores, como o pr√≥prio Ohmae (1996), chega a falar em ‚ÄúEstados-regi√Ķes‚ÄĚ, ou seja, ‚Äúzonas econ√īmicas‚ÄĚ, dispostas no interior dos Estados. Apesar do apelo ultraliberal tal vis√£o foi constru√≠da a partir de uma constata√ß√£o emp√≠rica (que tamb√©m merece ser cuidadosamente analisada) que √© a exist√™ncia de zonas ricas que deveriam, segundo o racioc√≠nio do autor, tornar-se independentes. Beck (1999:193), certo das transforma√ß√Ķes no Estado nacional e expressando uma clara preocupa√ß√£o pol√≠tica, coloca a quest√£o da seguinte forma:

O Estado nacional não envelheceu somente; ele ainda resistirá, e não apenas para garantir a geopolítica e a política interna, os direitos políticos essenciais, etc, mas para também dar forma ao processo de globalização e regula-lo transnacionalmente.

Sem negar o papel do Estado, o autor fala sobre um Estado transnacional, ‚Äún√£o territorial‚ÄĚ.
O modelo do Estado transnacional é híbrido, ou então hermafrodita; nele, traços fundamentais que o senso comum talvez imaginasse excludentes são recombinados e dissolvidos de forma ideal-típica. Estados transnacional são, em primeiro lugar, Estados não-nacionais, ou seja: Estados não territoriais. Beck (1999:193).

De forma semelhante, Castells (1999:461-385) coloca o seguinte:
Em torno do processo de forma√ß√£o da Uni√£o Europ√©ia, est√£o sendo criados novos tipos de Governo e novas institui√ß√Ķes governamentais nos √Ęmbitos europeus, regional e local, motivando uma nova forma de estado que proponho chamar de Estado em Rede.

Ao que tudo indica todos esses ‚ÄúEstados‚ÄĚ ou formas visualizadas de organiza√ß√£o social n√£o surgem, mesmo no horizonte longo, para substituir o Estado, mas junto com o Estado. S√£o respostas te√≥ricas ainda em constru√ß√£o, muito menos do que evid√™ncias emp√≠ricas, mesmo porque a necessidade de um Estado com outra formata√ß√£o parece mais uma vontade te√≥rica do que pol√≠tica propriamente dita, mesmo porque essa constru√ß√£o depende do pr√≥prio Estado, das escalas de governo. Em outras palavras, os intelectuais pensam mais nesse Estado que os pol√≠ticos e aqueles que comandam o destino das na√ß√Ķes.

Todas essas vis√Ķes de ‚ÄúEstados‚ÄĚ d√£o mostras da preocupa√ß√£o de cria√ß√£o de novas formas de coopera√ß√£o entre atores pol√≠ticos, saindo o monop√≥lio por parte do Estado. Para o bem ou para o mal o Estados ainda det√™m a legitimidade do poder, os meios de viol√™ncia, para lembrar Weber (1992). Ainda, em muitos casos, controlam suas fronteiras com for√ßa policial, abrigam o capital privado quando este se v√™ em perigo, fazem guerra, desafiando organismos internacionais e passando por cima da soberania de outros Estados. Por outro lado, esses mesmos Estados, porta vozes do neoliberalismo, insistem numa agenda de reformas para pa√≠ses como Brasil, Argentina, M√©xico, etc, que reduza drasticamente os investimentos sociais em benef√≠cio do pagamento de uma d√≠vida cuja contabilidade n√£o conseguimos entender bem. Ao mesmo tempo, como indicam as estat√≠sticas, pa√≠ses como o Jap√£o, Reino Unido, EUA, √Āustria, It√°lia, entre outros poucos privilegiados, tem aumentado os gastos do governo, diretriz pol√≠tica diferente daquele imposta abaixo do equador.

Do pouco que foi escrito fica a certeza que o discurso do fim do Estado-Nação tem relação estreita com uma série de discursos que oscilam entre o neolibelarismo unilateral (menos Estado para os países pobres, basta observar o papel do Estado, seja economia ou na regulação social, em países da União Européia ou mesmo Estados Unidos) e uma perspectiva social-democrata defendida com o mesmo entusiasmo por Giddens e Tony Blair, além, é claro, da visão da cultura como algo homogêneo, estanque, perfeitamente acomodada nas fronteiras do Estado nacional.

Existe tanto no meio acad√™mico quanto nos ambientes pol√≠ticos um ‚Äúdiscurso competente‚ÄĚ sobre o fim do Estado-Na√ß√£o. Para finalizar essa breve reflex√£o lembramos Marilena Chau√≠ (1982:07): ‚ÄúO discurso competente √© aquele que pode ser proferido, ouvido e aceito como verdadeiro ou autorizado (estes termos agora se equivalem) porque perdeu os la√ßos com o lugar e o tempo de sua origem‚ÄĚ. √Č preciso indagar sobre o lugar e a origem desse discurso para ent√£o deslumbrarmos, como fez Milton Santos, ‚Äúuma outra globaliza√ß√£o‚ÄĚ.

¬†Autor: Tadeu P. A. Arrais √© Professor de Geografia da UEG e Doutorando em Geografia pela Universidade Federal Fluminense ‚Äď UFF-RJ

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