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PROJETO ALVORADA

“Esse curso mudou a minha visão, com o término dele agora vou procurar trabalhar nessa área e vou administrar o meu tempo para voltar a estudar, antes disso eu nem tinha planos, agora tenho”, afirma concluinte do projeto Alvorada

Criado: Terça, 10 de Dezembro de 2019, 14h58 | Última atualização em Sexta, 20 de Dezembro de 2019, 16h23

Cerimônia de certificação aconteceu no último sábado e foi marcada pela emoção e por sentimentos de esperança e gratidão

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No último sábado, dia 07 de dezembro, 26 dos 28 alunos concluintes do curso de Eletricista Predial do Instituto Federal de Goiás (IFG), ofertado por meio do projeto Alvorada, foram certificados na cerimônia oficial de conclusão do curso realizada das 9h30 às 12h no auditório do Câmpus Goiânia Oeste do IFG.

Antes mesmo do início da cerimônia, um café da manhã foi ofertado aos concluintes, seus familiares e autoridades presentes pela equipe do projeto Alvorada. Na sequência, houve a abertura oficial da cerimônia com a composição da mesa diretiva. Compuseram a mesa da Certificação do Curso de Formação Inicial e Continuada (FIC) de Eletricista Instalador Predial de Baixa Tensão o reitor do IFG, professor Jerônimo Rodrigues da Silva; a representante do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça e Segurança Pública, Marcele Curvelo; o representante da Diretoria Geral de Administração Penitenciária do Estado de Goiás, Sr. Willian Kencys Mold Feitosa Alvez; o pró-Reitor de extensão do IFG, professor Daniel Silva Barbosa; o diretor-geral do Câmpus Goiânia Oeste, professor Cleberson Arruda; e o coordenador geral do projeto Alvorada no IFG, professor Emmanuel Victor Hugo Moraes.

O coordenador pedagógico do projeto, o professor do Câmpus Goiânia Oeste, Leonardo Martins, abriu a cerimônia apresentando aos presentes a origem e objetivos do projeto. Leonardo lembrou que o projeto nasceu no Instituto Federal de São Paulo (IFSP) e que foi executado no IFG no Câmpus Goiânia Oeste após um chamamento do Departamento Penitenciário Nacional em parceira com o Ministério da Justiça e Segurança Pública e com a Defensoria Pública do Estado de Goiás e a Diretoria Geral de Administração Penitenciária de Goiás com o objetivo de promover a inclusão social e produtiva de pessoas egressas do sistema prisional através do curso de Formação Inicial e Continuada em Eletricista Instalador Predial de Baixa Tensão.

Marcele Curvelo, representante do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça e Segurança Pública, também recordou em seu discurso a origem do projeto: “A iniciativa pioneira e bem-sucedida realizada no IFSP gerou a necessidade de replicarmos isso em outros locais. A princípio seria uma pequena expansão do projeto, porém, os Institutos Federais se demonstraram tão interessados que o projeto cresceu e 30 unidades federais de educação aceitaram o desafio. Porém, o momento não era favorável, mudança de governo, mudança de direção, aí, justamente no momento que a gente ia passar a segunda parcela de financiamento do projeto, a nova direção decidiu cancelar o Alvorada. Em um país onde temos mais de 700 mil presos e a demanda maior é por vagas, onde a superlotação nos presídios é fato, o gestor quando assume e olha que não tem vagas, de imediato o que pensa é construir espaços, criar vagas, e não em prestar uma assistência, em uma política de desencarceramento. Mas eu fico feliz em dizer, que pela insistência do IFG e do professor Emmanuel, depois de muita briga, a gente conseguiu autorizar a execução do projeto. Foi redução de recursos, foi briga, mas nada disso teria sido possível se não tivesse os interessados e parceiros, se o câmpus não topasse, se a extensão não estivesse junto, se a defensoria pública não apoiasse, e principalmente, se vocês, estrelas hoje dessa cerimônia, não topassem participar, não se empenhassem em concluir, não acreditassem no projeto. Me alegro muito em participar dessa cerimônia porque vejo que o projeto foi muito além do proposto, o proposto era certificar, qualificar e tentar inserir socialmente, mas vocês impactaram todos, todos os outros alunos do câmpus, todos os professores, todos aprenderam com esse projeto, não só vocês ganharam, mas quem está ao redor também ganhou e ganhou muito mais”.

Discursos da mesa diretiva emocionaram durante a cerimônia

As dificuldades inicias para implantação do projeto foram mencionadas também no discurso do coordenador geral do projeto Alvorada no IFG, professor Emmanuel Victor Hugo Moraes, que destacou que dentre as 30 instituições que inicialmente receberem a primeira parte do financiamento do projeto, o IFG foi a única instituições que iniciou e concluiu o curso do projeto Alvorada: “Ouvimos que o Ministério da Justiça não iria gastar 20 milhões de reais com bandido, que era muito mais barato, manter e aumentar um presídio em um estado que pensar e cumprir a obrigação de ofertar a educação, que seria mais barato para o governo bancar as pessoas dentro do presídio do que bancar a educação, do que bancar a mudança de vida de fato. Mas a gente bateu o pé, não aceitamos, falamos que não iríamos devolver o dinheiro que tinha sido repassado, que iríamos reduzir o tempo do curso, o valor, mexer no que desse, preservando a metodologia do projeto, porque as histórias de vocês são importantes. Se esse curso mudou a história de vocês, possibilitou um recomeço, vocês podem ter a certeza que cada pessoa que conviveu com vocês, mudou, aprendeu. A gente aprendeu a ser professor de uma maneira que a gente nunca esperava, com a metodologia da docência compartilhada, dois professores em uma sala, tutor, em uma turma de EJA (Educação de Jovens e Adultos), com alunos semialfabetizados, com ensino fundamental ou médio incompleto e outros até com ingresso no nível superior. Alunos com histórias de vida diferentes, que passaram um ano preso e outros que chegaram a ficar 20 anos recluso, tem aluno aqui que a gente não pode nem falar de reinserção social, porque reinserir pressupõe que ele já tenha sido inserido em algum momento. Tem aluno aqui que a vida deixou no escanteio desde o nascimento e que hoje está assumindo que em algum momento cometeu um erro, mas pagou por ele e tá pago, não adianta mais a sociedade ou a gente ficar olhando como se vocês fossem bandidos, vocês não são, vocês são cidadãos de direito e é isso que a gente quer que vocês saiam daqui com plena convicção, vocês têm todos os direitos que qualquer um de nós temos”.

“O nome Alvorada representa a Alvorada de novos horizontes, de sonhos e perspectivas e isso era justamente o que a gente queria replicar em Goiás e em Goiânia com esse projeto. Esse projeto surgiu de pessoas que acreditam na educação em São Paulo, mas nós temos pessoas que acreditam na educação no país inteiro, e, felizmente, a gente teve o suporte, o apoio, a solidariedade e a colaboração de muitas pessoas dessa instituição e de outras parceiras que também acreditam na educação, que acreditam que vocês são sujeitos de direitos e de dignidade. A gente ouviu nesses seis meses de convívio palavras que não se aplicam, são palavras de um registro ainda da exclusão, da opressão, do preconceito, não aceitem nunca serem chamados de bandidos. Eu cumprimento todos os que acolheram esse projeto, e destaco aqui em meus agradecimentos a professora Martha e o professor Ubaldo, gestores que inicialmente bancaram esse projeto. O projeto Alvorada não é favor, não é bondade, é política pública, vocês têm direito a isso, aliás, muito melhor se vocês tivessem tido os seus direitos garantidos antes de terem dito o destino que tiveram. Eu falo vocês, mas estamos falando de milhares, centenas, milhões de brasileiros que estão em uma situação como essa, de falta de oportunidades, de falta de política pública, nós precisamos de política pública e não de bala, repreensão e cadeia. E o IFG ao abraçar esse projeto mostra que a instituição compreendeu o seu papel, de acolher a diferença, de acolher a diversidade, de atuar para que de fato as instituições públicas de ensino transformem a sociedade”, ressaltou em seu discurso o pró-Reitor de extensão do IFG, professor Daniel Silva Barbosa.

Para comprovar que a função social de reinserção dos egressos faz parte do papel das instituições de ensino, o reitor do IFG, professor Jerônimo Rodrigues da Silva, fez em seu discurso de encerramento um resgaste histórico das leis que criaram e regulamentaram o funcionamento do IFG antes mesmo de se tornar instituto federal, durante toda a sua atuação centenária como instituição de ensino: “Estamos no caminho certo com a realização desse projeto, esse é o nosso papel. Essa é uma das solenidades mais importantes que já participei como reitor nesses seis anos dentro do IFG. Vocês são egressos do IFG, não esqueçam isso e honrem esse título”.

Para o coordenador pedagógico do Projeto Alvorada, Leonardo Martins da Silva, além da função social da instituição demandar projetos como o Alvorada, a localização e os eixos tecnológicos do Câmpus Goiânia Oeste também estão relacionados com uma atuação de cunho social: “Tentamos mostrar para a comunidade acadêmica que projetos de extensão como esse são importantíssimos, que a gente tem que dar uma devolutiva pra sociedade, que essa infraestrutura tem um custo social. A função social do câmpus pelo eixo tecnológico que atua, a educação e a saúde, e pela sede onde passaremos a ocupar no ano que vem, o local escolhido para atuação desse câmpus, abre uma perspectiva para a atuação de projetos como esse. Estamos indo para uma região mais periférica, o extremo oeste da cidade, uma região com uma demanda social muito grande”.

Em seu discurso, o orador da turma, Iraí Liberato Barbosa, reforçou a importância da realização do projeto no cumprimento da função social do IFG: “Essa certificação é um importante momento para nós, pois representa que cada um de nós, mesmo diante de problemas de naturezas diversas, está caminhando passo a passo no sentido de alcançar os seus objetivos com mérito e esforço. Entendemos também a importância desse momento para o IFG e para a Defensoria Pública do estado de Goiás como instituições formadoras, iniciativas como a do projeto Alvorada são uma valorização do cidadão que deseja ser um profissional a fim de contribuir com o desenvolvimento da sociedade”.

Iraí Liberato Barbosa, egresso do sistema prisional e concluinte do curso de Eletricista Predial, também destacou em seu discurso o papel dos professores: “Dos nossos professores levaremos essa lembrança muito significativa, na ministração das aulas, nas atividades e na convivência diária, os professores mostraram que existe felicidade quando nos esforçamos para fazer coisas bem-feitas e que deem prazer. Durante todo o curso os professores enfatizaram que a oportunidade existe e que é preciso estar atento para não desperdiçar certos momentos, mas se perdermos uma oportunidade, acredite que outras lhe serão apresentadas, assim fomos encorajados o tempo todo, para não ficar olhando o que já passou, mas sim, seguir adiante sem nunca perder o entusiasmo”.

O encorajamento e a esperança foram enfatizados na fala da tutora do projeto, Letícia Cunha Fernandes: “Muitos de vocês não puderam contar com o apoio dos familiares e foram discriminados e até humilhados, mas a gente espera que vocês tenham se sentido aqui, nesse câmpus, abraçados, acolhidos e queridos. Em nome da equipe educacional do projeto eu quero dizer que acreditamos em vocês, acreditamos que vocês podem atingir os objetivos profissionais que almejam, os sonhos que possuem. Quero agradecer a vocês por tanto aprendizado e finalizar dizendo a frase que aprendi com vocês: vamos pensar certo, pra tudo certo dar”.

Além do certificado entregue pelas autoridades da mesa diretiva a cada aluno concluinte do curso de Eletricista Predial ofertado por meio do projeto Alvorada no IFG, os alunos foram presentados pelos professores e pela equipe do projeto com uma caixa de ferramentas para atuarem profissionalmente com o conhecimento técnico aprendido no curso. Os egressos do sistema prisional receberam ainda dos alunos do segundo ano do curso Técnico em Nutrição e Dietética um panetone.

ACOMPANHAMENTO E INSERÇÃO NO MERCADO DE TRABALHO

Emmanuel Victor Hugo Moraes, coordenador geral do projeto, explicou que durante o período do projeto, oito alunos foram inseridos no mundo do trabalho por meio do estágio formal e que outros alunos já estão prestando serviços na área. “Ainda não conseguimos estágio para todo mundo, mas entregamos o kit pronto com as ferramentas para que eles possam já começar a trabalhar e prestar serviços, inclusive os professores da área técnica estão dando suporte para que esses alunos consigam trabalhar por conta própria. Até o final de janeiro continuaremos o acompanhamento com os tutores e com os próprios alunos. Para depois de janeiro, iremos organizar um grupo de trabalho com as pessoas que trabalharam no projeto e com a equipe da Proex para continuar fazendo um acompanhamento desses egressos, para continuar tentando localizar estágios e inseri-los no mundo do trabalho. A gente vai continuar fazendo atendimento psicossocial com eles e esse grupo de trabalho vai atuar por mais pelo menos seis meses até que todos tenham tenham sido inseridos no mundo do trabalho ou tenham começado a trabalhar por conta própria”, explicou Emmanuel.

EDUCAÇÃO TRANSFORMADORA

Durante a cerimônia de certificação, o coordenador geral do projeto Alvorada no IFG, professor Emmanuel Victor Hugo Moraes, fez questão de parabenizar os setes alunos que desejam continuar na instituição e que se inscreveram para os processos seletivos dos cursos Técnicos na modalidade EJA e nos cursos Técnicos Subsequentes do IFG.

“Na verdade, a formação técnica foi só o fio de partida, porque a justificativa maior do projeto é a inclusão social, então, eles tiveram disciplinas na área técnica, mas tiveram disciplinas também de projeto de vida, português, matemática, esporte, saúde, informática. Com o decorrer do curso, alguns deles sentiram que precisam estudar mais, e como é um curso FIC, de formação inicial e continuada, para muitos ele foi somente o início desse processo formativo. Como podemos ver pelas inscrições que eles fizerem nos processos seletivos do IFG, eles querem continuar estudando e verticalizar na formação”, contou o coordenador pedagógico do projeto, professor Leonardo Martins.

Walisson Braga Campos, concluinte do curso de Eletricista Predial do Projeto Alvorada, é um dos inscritos no processo seletivo do IFG. Walisson participará essa semana da palestra para concorrer a uma vaga no curso Técnico em Desenvolvimento de Sistema na modalidade EJA no câmpus Goiânia: “Esse curso foi uma oportunidade que deram pra gente de grande utilidade, a gente não tem uma profissão e eles deram pra gente essa oportunidade de ser eletricista e eu abracei e consegui terminar. Agora o plano é arrumar um serviço, um emprego e cuidar da minha família é o que eu mais quero. Quero também correr atrás e estudar mais ainda. Foi muito bom relembrar tudo, matemática, português, redação, essas coisas que tinha muito tempo que tinham ficado esquecidas”.

Rafael Pereira Machado, também concluinte do projeto Alvorada se inscreveu para o curso Técnico Subsequente em Eletrotécnica no Câmpus Goiânia: “Fui chamado para levar minha documentação e agora estou aguardando o resultado da reserva de vagas. Eu já tinha feito outros cursos em outras instituições como no Senai, e aqui o curso abrangeu muitas áreas além do curso, foi mais do que eu esperava. Eu já tinha terminado meus estudos, eu estudei há 17 anos atrás e muita coisa foi voltando na mente e a intenção agora é continuar a estudar. No começo foi meio constrangedor pra gente estar no câmpus, muita gente tem preconceito, mas eu gostei muito do local e das pessoas, de como fui recebido aqui”.

Professor Carlos Roberto entrega caixa de ferramentas para concluinte

“Confesso que no início eu tive uma certa preocupação de como poderia ser o comportamento deles em sala de aula e o interesse deles em aprender. Mas me surpreendi, o interesse deles supera de muitos alunos no curso superior, porque não é um interesse em notas, é um interesse em aprender mesmo em ter um aprendizado que pode ser útil para eles conseguirem um serviço. Claro que teve a fase inicial de aceitação, deles estarem em sala de aula e se reconhecerem como alunos. Em seguida veio a etapa deles perceberem que o conhecimento que estavam recebendo poderia ser útil no mercado de trabalho e até mesmo em casa, para prestar algum serviço. Depois eles passaram e ser ver como cidadãos, como pessoas que fazem parte da sociedade, que podem muito bem pleitear uma vaga em uma instituição como o IFG para estudar em um curso técnico e até mesmo em um curso superior. Durante o curso eles mudaram a visão que possuem como pessoas que fazem parte da sociedade”, afirmou Carlos Roberto, professor de Eletricidade do curso.

João Batista da Silva Júnior, também concluinte do projeto Alvorada, contou como participar do projeto despertou nele novamente o sonho de cursar uma faculdade de enfermagem: “O meu sonho era fazer enfermagem e teve uma semana de atividades aqui, a SECITEC, que a gente conheceu os outros cursos que tem aqui, eu participei de umas aulas no laboratório e me interessei ainda mais. Eu já tenho um curso de bombeiro civil e já estava pensando nessa área. O professor Leonardo me falou do Educa Mais Brasil pra ver se eu conseguia a bolsa, eu agradeço o professor Leonardo que deu um apoio muito grande pra gente e me deu esse apoio para conseguir essa bolsa. Fui aprovado na Unip no curso de Enfermagem, consegui uma bolsa de 70% pelo Educa Mais Brasil e no dia 03 de fevereiro já começo na faculdade. Esse curso abriu meu horizonte, eu não queria ficar parado só aqui, queria pensar futuramente. Foi um aprendizado muito bom aqui no IFG, o pessoal acolheu a gente muito bem, a gente aprendeu muito e não só eu, os outros alunos também viram uma visão mais pra frente, de não parar só aqui nesse curso, mas buscar uma coisa melhor ainda futuramente. A gente fica meio receoso de voltar a estudar, eu tinha vergonha de entrar aqui, porque a população julga. Mas a gente não pode julgar um livro pela capa, a gente tem que ver o conteúdo dele. Mas graças a Deus aqui o pessoal tratou a gente super bem, foi um tratamento diferente da população fora daqui, se fosse em outro lugar capaz que nem iam deixar a gente passar do portão. Aqui todo mundo acolheu a gente bem, o pessoal da limpeza, os seguranças, os professores, os outros alunos que estudam aqui, todo mundo tratou a gente super bem. Eu acho que esse curso tinha que ser mais divulgado pra população ver que não deve julgar uma pessoa”.

“Quando eles chegaram, eles tinham vergonha de entrar no câmpus, eles não se sentiam pertencentes ao espaço aqui, eles ficaram meio receosos no início de usar os espaços, de usar os recursos do câmpus. Mas isso depois foi melhorando, eles foram criando o hábito de utilizar os espaços e esse senso de pertencimento veio. Eu vejo que, eles compreenderam o papel que a educação tem na mudança de vida deles, que a educação é transformadora. Eles sentiram a transformação acontecer, a forma deles falarem, de se portarem, eles saem daqui mais preparados para exercer a cidadania e para compreender que a educação é transformadora e libertadora. Essa visão de que saiu do sistema prisional está livre ela precisa ser ampliada, a nossa sociedade precisa entender isso, não é só estar porta fora do sistema carcerário que garante a liberdade. A liberdade vem a partir do momento que o conhecimento se assenta”, destacou Leonardo Martins, coordenador pedagógico do projeto.

Apesar de não ter se inscrito em nenhum processo seletivo, Sinomar Basílio de Souza, aluno do curso e egresso do sistema prisional, também pretendo continuar os estudos: “Foi uma experiência muito importante na minha vida fazer esse curso, além de adquirir mais uma profissão, conheci outras pessoas. A vida é assim, fazer amizades com pessoas boas e aprender coisas novas. Então hoje eu me considero um eletricista profissional, primeiro, graças a Deus, e depois ao projeto Alvorada. Hoje eu peguei o certificado e posso encher a boca para falar que eu sou um eletricista formado. Eu quero tentar trabalhar na área, mas esse tempo que eu estive aqui estudando fez eu ter uma visão melhor da vida, porque igual o professor Leonardo falou, ninguém estava assumindo essa mesa da formatura sem ter estudado. Hoje eu tenho essa visão, seu eu ficar trabalhando no serviço que eu tenho durante 20 anos eu vou conquistar só alguns bens, mas se eu estudar, eu vou conquistar coisas melhores não só pra mim, mas pra minha filha, porque eu vou ter uma educação melhor para dar para ela, eu vou ter um emprego melhor para dar para ela, eu vou ter um apoio melhor pra ela. Esse curso mudou a minha visão, com o término dele agora eu vou procurar trabalhar nessa área e vou administrar o meu tempo para voltar a estudar, antes disso eu nem tinha planos, agora eu tenho planos de voltar a trabalhar e estudar”.

“Para a maioria deles o grande desejo é trabalhar, é conseguir ganhar dinheiro e se sustentar. Mas para muitos o sonho de voltar a estudar foi acalentado novamente, sentar em uma escola, ver que é possível se formar, transformar a vida pela educação. Para a gente do projeto, essa foi uma grande surpresa e também um desafio, incentiva-los a voltarem a estudar e mostrar que a educação vale a pena. Projetos como esse provam que a educação vale a pena e transforma. Muita gente acha que a gente é utópico e sonhador quando a gente fala de educação pública, gratuita, de qualidade e inclusiva, a gente precisa tirar isso de slogan da Rede Federal e de fato fazer com que isso seja realidade. E esse é o nosso grande desafio, fazer uma educação transformadora, inclusiva, que seja pública e de qualidade, principalmente para as pessoas mais marginalizadas, para aquelas que realmente são excluídas socialmente. Ao ver a mudança que a educação fez na vida desses alunos eh fico emocionado, satisfeito, com as minhas energias e esperanças renovadas para continuar acreditando na educação, no IFG e na Rede Federal”, ressaltou Emmanuel Victor Hugo Moraes, coordenador geral do projeto.

LEGADO PARA A COMUNIDADE ACADÊMICA

Para Letícia Cunha Fernandes, a emocionante cerimônia de certificação sintetizou “tudo o que o projeto representou” na vida do câmpus, para a comunidade acadêmica e na vida desses alunos. “A gente aprendeu muito com essa experiência. Acreditamos que eles podem recomeçar e acreditamos que a educação é o único instrumento de mudança social. Esperamos que essa qualificação profissional possa ajudá-los pois eles anseiam por um emprego para seu sustento digno. Como tutora pude acompanhar de perto a história de vida e de superação destes nossos alunos que muitas vezes lidam com desafios quase intransponíveis. A verdade é que o nosso modelo de sociedade não está preparado pra acolher e apoiar esse público que, após cumprir o que deviam, ainda precisam enfrentar preconceitos e desconfiança o tempo todo. Infelizmente, tudo isso acaba por fortalecer o sentimento de rebaixamento sobre essas pessoas”, afirmou Letícia.

De acordo com a tutora, o maior desafio da equipe foi a desconfiança de alguns servidores do câmpus e de pais de alunos dos cursos técnicos integrados ao ensino médio com os egressos do sistema prisional. Leonardo Martins da Silva, coordenador pedagógico do Projeto Alvorada, também considerou a recepção da comunidade uma dificuldade para a execução do projeto: “A recepção da comunidade não foi fácil, eu pensei que não ia dar certo. Tivemos uma reunião inicial com os pais e houve muita resistência. Isso é um pouco da visão que nossa sociedade tem a respeito dos egressos do sistema prisional. Mesmo eles tendo já cumprido uma pena, eles ainda carregam um estigma de ter pertencido aquele espaço. E essas pessoas nem conheciam os alunos do projeto alvorada. No momento que os alunos do Alvorada chegaram aqui e eles visualizaram quem eram esses egressos, muitos alunos e servidores me perguntaram, ‘mas esses são os alunos do Alvorada, você tem certeza?’ ‘Nossa, ele parece ser uma pessoa tão distinta, realmente ele cometeu um crime?’ À medida que eles foram chegando e o projeto foi assentando, caíram alguns rótulos, as pessoas começaram a dar credibilidade ao projeto e começaram a querer participar um pouco mais. Tanto que alguns professores aceitaram o nosso convite de participar do projeto. É porque não conseguimos todos os professores necessários no processo seletivo, aí tivemos que fazer alguns convites, para alguns servidores do câmpus, alguns ficaram meio reticentes no início, mas depois aceitaram e participaram do projeto”.

Samarah Cristina de Almeida Cardoso, aluna do terceiro ano do curso Técnico Integrado em Análises Clínicas, acompanhou a cerimônia de certificação e contou que sua mãe foi uma das pessoas que resistiram ao projeto inicialmente: “Minha mãe ficou um pouco de medo no começo, é a questão de proteger o filho né. No decorrer do semestre ela perguntava como era o convívio com eles e aos poucos ela foi se acalmando e foi ficando tudo bem. No começo a gente se sentia também incomodado com a presença deles, com os olhares de alguns, mas foi ficando tudo tranquilo e foi melhorando aos poucos”.

“A gente não estava acostumado com o olhar, era tudo novo, diferente, acho que nem eles entendiam o comportamento que eles tinham que ter em relação a gente, mas isso com o tempo eles foram entendendo, foram amadurecendo. Eu sempre gostei da ideia do projeto, a gente recepcionou eles no primeiro dia de aula e eu tentava conversar com eles no dia a dia, porque não adianta querer uma reintegração e deixar eles aqui e não querer que a gente converse com eles. Eu achava importante conversar com eles, ter essa integração. No começo tinha essa curiosidade nossa, o que eles fizeram, o que será que esse fez, que crime cometeu. Mas no final a gente pensava que independente do que ele fez, passou e continua a vida e é assim. No final eles se interagiam com a gente, jogavam vôlei e futsal com a gente”, contou Helisa Maria Ferreira Souza, aluna do segundo ano do curso Técnico Integrado em Nutrição e Dietética.

“A maior aprendizagem que tivemos foi justamente conviver integrados num mesmo ambiente escolar junto com toda a comunidade acadêmica diariamente. Não houve segregação e nós pudemos comprovar durante esses meses o quanto esses alunos se sentiram parte dessa instituição, nos dando lições de respeito e dignidade. Tenho certeza que os demais alunos, especialmente os dos cursos técnicos integrados ao ensino médio sairão dessa instituição com outro olhar sobre o mundo e as pessoas, despidos de muitos preconceitos, cidadãos mais tolerantes para a construção de uma sociedade mais justa”, enfatizou Letícia Cunha Fernandes, técnica em assuntos educacionais do IFG Câmpus Goiânia Oeste e tutora do projeto.

Caio Fábio Santos e Silva, discente do terceiro ano do curso Técnico Integrado em Nutrição e Dietética, afirmou ter tido receio de receber os alunos do projeto Alvorada: “Eu fiquei um pouco receoso de recebê-los aqui, deu um pouco de medo. A gente acha que é uma coisa, mas depois que a gente conhece as pessoas a gente vê que é totalmente diferente, eles são pessoas bastante legais que tentam e estão tentando mudar e conseguir uma nova vida agora e a convivência com eles foi muito boa. Eles participaram bastante das atividades da Secitec, eu participei junto com eles de um debate sobre machismo e na hora que abriu pra roda de conversa eles começaram a falar como foram criados, como que eles pensavam e deu pra ver que durante o projeto houve uma grande desconstrução de pensamentos, eles viram o que eles estavam fazendo de errado e falaram que iam mudar. E deu pra ver também que as atitudes deles durante o convívio aqui no câmpus mudaram muito no decorrer do semestre. Eu acredito que deveria ter mais edições desse projeto, porque dar uma segunda chance para essas pessoas é dar um futuro melhor pra nossa sociedade”.

Helisa Maria também torce para que novas edições do projeto aconteçam no câmpus: “Eu apoiaria demais ter uma nova edição do projeto, não só pelos alunos do projeto Alvorada, mas para os alunos do técnico integrado do IFG mesmo, porque eu acho que esse projeto mudou bastante a gente, o jeito da gente pensar em relação a julgar as outras pessoas, o nosso amadurecimento. Minha mãe sempre me ensinou a não julgar independente do que a pessoa tenha feito e eu sempre pensei muito nisso e eu esperei ver os meninos primeiro para depois ver o que ia acontecer. Tanto que na reunião que teve com os pais a minha mãe foi super a favor de dar uma chance para os meninos. Mas muitos pais ficaram preocupados, ‘não porque não vai estudar junto com o meu filho, como vai colocar esse tanto de homem que a gente nem sabe o que fez junto com vocês’. Mas eles sempre se mostraram muito respeitosos com a gente e que eles realmente queriam tentar uma oportunidade de reintegração na sociedade e aqui eles viram uma base pra isso. Eu não sabia como tinha sido difícil trazer o projeto pra cá e quando o coordenador falou na certificação o tanto que ele teve que lutar pro projeto acontecer, a gente vê que os meninos recompensaram muito o esforço de todo mundo, porque, todo dia estar aqui não é fácil. Ainda mais pra eles, é uma luta todo dia”.

“Eu vejo que o projeto, ensinou muito a comunidade acadêmica, nós tivemos uma ação social de arrecadação de alimentos e parte da justificativa dela foi arrecadar alimentos para os alunos do Alvorada. A gente percebe que o projeto trouxe um pouco mais desse espírito de solidariedade no câmpus, tanto que arrecadamos mais de 500 kg de alimento. Eu vejo que o projeto Alvorada deixa um legado de aprendizado muito grande, para a comunidade. E a nossa ideia agora é fazer uma reunião com os pais e fazer uma tratativa, um feedback, mostrar como foi o desenvolvimento do projeto, como foi a participação da comunidade, quais foram as intercorrências. Acredito que com essa experiência a gente sai mais preparado para ações semelhantes futuramente em nosso câmpus”,  disse Leonardo Martins, coordenador pedagógico do projeto Alvorada.

Samarah Cristina afirma que conviver com os alunos do projeto contribuiu para a sua formação: “O Alvorada foi um projeto muito importante para o nosso amadurecimento e para o amadurecimento deles enquanto cidadãos que estão voltando para a sociedade. Eles estão se vendo em uma outra realidade, tem pesquisas que falam que quando eles saem a maioria deles não consegue emprego, não consegue conviver com as pessoas direito, nem mesmo com a própria família, porque vêm o preconceito querendo ou não. E na formatura a gente viu eles todos unidos, foi muito bonito ver a união que eles construíram. É um passo para um novo recomeço. Foi muito bonito ver que alguns levavam os filhos no colo pra receber junto com eles o certificado, a filha levantando o certificado com orgulho do pai, foi muito bonito ver a família com orgulho deles depois de tudo, porque querendo ou não quando isso acontece, os mais afetados são a família, que tem que dar o apoio, que tem que pagar, porque lá dentro tudo a pessoa tem que pagar e é muito complicado. Eles se apoiaram muito na formatura, foi muito bonito ver a emoção no rosto de cada um deles, todos querendo tirar fotos com a família, com o certificado, a conquista que isso foi pra eles. A educação é muito importante para eles e essa formação é uma chance deles recomeçarem de verdade, de terem um emprego digno e sair da marginalidade. E foi bom pra gente amadurecer, a gente aprendeu muito com o pessoal do projeto. Eu posso falar por mim, eu estou saindo agora do terceiro ano, eu falo que eu aprendi a não julgar as pessoas pelo o que elas fizeram, porque as pessoas sempre têm uma chance de recomeçar tudo diferente”.

 

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Coordenação de Comunicação Social/IFG Câmpus Goiânia Oeste

 

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