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EJA 20 ANOS

“Agradeço imensamente ao IF. Mudou a minha vida. O conhecimento trouxe a mudança na minha vida”, Débora Santiago, egressa do técnico em Cozinha

Segunda reportagem da série especial apresenta a história de Débora Santiago, egressa do técnico em Cozinha e aluna de Turismo no câmpus

  • Publicado: Quinta, 10 de Setembro de 2026, 09h30
  • Última atualização em Quinta, 10 de Setembro de 2026, 12h11
Nesta segunda reportagem em comemoração aos 20 anos do curso de EJA em Cozinha/Gastronomia no Câmpus Goiânia do IFG, Débora Santiago, egressa do curso técnico em Cozinha (EJA) e estudante de Turismo na unidade, compartilha sua trajetória e como a educação transformou sua vida.
Nesta segunda reportagem em comemoração aos 20 anos do curso de EJA em Cozinha/Gastronomia no Câmpus Goiânia do IFG, Débora Santiago, egressa do curso técnico em Cozinha (EJA) e estudante de Turismo na unidade, compartilha sua trajetória e como a educação transformou sua vida.

Aos 50 anos, quando muitos poderiam acreditar que já está tarde para recomeçar, Débora Santiago decidiu fazer justamente o contrário: abriu espaço para um novo sonho. Dona de casa, com os filhos criados e trabalhando em um minissalão de beleza montado dentro da própria residência, ela dividia os dias entre o trabalho, a família e, à noite, as salas de aula do Câmpus Goiânia do Instituto Federal de Goiás (IFG). Em 2021, voltou a estudar e ingressou no curso técnico em Cozinha/Gastronomia, na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA).

“Eu espero ficar dentro do IF muito tempo ainda, porque isso me fortalece. Por mais que eu chegue cansada, mas cada vez que eu vou lá, eu aprendo uma coisa diferente. E isso para mim é muito importante”, afirma Débora Santiago.

Hoje, aos 55 anos, Débora Santiago é cozinheira do Sertão Negro, localizado no bairro Shangrilá em Goiânia,  e estudante de Turismo. Mais do que uma mudança profissional, ela define a passagem pelo IFG como um divisor de águas em sua vida.

“Eu estava com 50 anos, voltar a estudar para quê? Porque as pessoas não incentivam, mas meus filhos me incentivavam. Na época eu ainda era casada, meu marido não falava nem sim e nem não, não falava nada. Eu fiquei 18 anos trabalhando dentro de casa. Foi assim que eu criei meus filhos, que eu pude criá-los. E então quando cada um conseguiu, como se diz, andar com as próprias pernas. Eu falei, agora eu posso voltar a estudar”, conta Débora Santiago.

Mesmo já atuando na área da Estética, ela sempre teve uma relação afetiva com a cozinha. O gosto veio de casa, das lembranças da mãe e da avó, que era doceira. Trinta anos antes, Débora havia concluído um curso técnico de nível médio em Contabilidade. Ainda assim, ela decidiu abrir um novo capítulo e ingressar novamente em uma formação técnica, dessa vez na área que despertava sua paixão.

Coragem para recomeçar

Aos 55 anos, Débora Santiago concilia o trabalho como cozinheira no Sertão Negro com os estudos em Turismo e define sua passagem pelo IFG como um divisor de águas em sua vida.

Voltar à sala de aula aos 50 anos não foi simples. O maior desafio, conta Débora, era encontrar disposição e coragem para enfrentar as aulas noturnas depois de um dia inteiro de trabalho em casa.

“Graças a Deus, eu tive ajuda dos meus filhos e tenho até hoje, já que eu curso Turismo. Os desafios são esses de você ter disponibilidade e coragem, porque à noite você chega, para quem trabalha, já chega derrotado. O desafio que eu achei maior foi esse”.

Pedro Lucas e Luciano Filho foram importantes nessa caminhada. Este último, inclusive, seguiu os passos da mãe e ingressou neste ano no curso técnico integrado ao ensino médio em Eletrônica, no Câmpus Goiânia do IFG.

Mas havia ainda outro desafio: explicar às pessoas o que, de fato, significava fazer um curso técnico em Cozinha na modalidade EJA. Débora comenta que encontrou muito desconhecimento em torno da formação. Alguns imaginavam que o curso se limitava às atividades de uma cozinha, porém sem compreender que, além das disciplinas técnicas, os estudantes do curso também aprendem os componentes do ensino médio.

“Sobre o Técnico em Cozinha, já me perguntaram, várias vezes, se eu ia aprender a organizar a louça, se era para lavar louça. Tinha muita resistência também nessa questão, porque às vezes quando era aula no Laboratório Gastronômico, as pessoas não entendiam que era para fazer tudo”, recorda. Foi justamente nesse “fazer tudo” que Débora Santiago começou a descobrir que sua formação poderia levá-la muito mais longe do que imaginava.

Quando o medo virou voz

Durante o curso, ela conheceu um universo que ampliaria ainda mais seus horizontes: o das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs), apresentado pelo professor Alcyr Viana. As aulas tinham um forte componente prático, e foi em uma dessas experiências, durante um evento no Câmpus Goiânia Oeste do IFG, que Débora enfrentou um de seus maiores medos.

Ela e outros estudantes precisavam preparar um caldo nesse evento e apresentá-lo ao público. O desafio, porém, não terminava quando a receita ficava pronta. Ao final, o professor pediu que os alunos explicassem como haviam preparado o prato. O que poderia ter sido apenas mais uma atividade de aula acabou se tornando um momento de transformação.

“Eu acho que foi nesse dia que perdi o medo de falar em público. Todo mundo ficou duro. Como assim não vou fazer esse caldo. No final, a gente deu conta de fazer esse caldo. Chegou na hora, ele [professor Alcyr] falou, agora vocês vão ter que falar como fizeram esse caldo. E a partir desse dia em diante, a gente fez e deu certo”, recorda.

Depois daquele dia, Débora passou a aceitar convites para participar de eventos gastronômicos e projetos. Um deles foi o Quilombo Sustentável, convite feito pelo professor Alcyr. “Meu sonho era conhecer um quilombo. Lá conheci outras pessoas”.

Os encontros abriram novas portas. Vieram novos convites, novos aprendizados e experiências que ela talvez não imaginasse viver quando, aos 50 anos, decidiu simplesmente voltar a estudar. Entre elas, a participação na COP30, em Belém (PA), em 2025, além de trabalhos relacionados às PANCs.

Saberes para além da sala de aula

Aos poucos, Débora entendeu que aprender uma profissão também significava sair dos limites da sala de aula. Para ela, a prática, a experimentação e a busca por novos espaços foram fundamentais para descobrir que tipo de cozinha queria seguir.

“Eu entendi que assim eu ia aprender muito mais. As pessoas têm essa dificuldade de entender que não é só lá dentro da escola, tem várias outras coisas que você tem que fazer para alcançar. A pessoa tem que praticar e procurar outros lugares, para definir que tipo de cozinha que você vai querer, porque lá a gente aprendia todo tipo de cozinha, mas qual que era interessante, qual te enche os olhos? Porque cozinhar, além do amor, você tem que entender o que é que você quer”, recomenda.

No início dessa jornada, ela participou de muitas feiras para aprimorar suas habilidades. Ali, aprendeu que cozinhar também é saber ouvir, conversar, acolher e compreender quem está do outro lado da banca. “Eu fiz feira, é complicado, porque se você não tiver empatia, as pessoas não chegam perto de você. Não chega na banca, você tem que saber explicar, ter carisma, tem que fazer uma coisa gostosa e tem que entender o que aquele público quer”, explica.

E havia ainda o desafio de falar sobre as PANCs, muitas vezes vistas simplesmente como “mato”. “Você precisa explicar sobre aquilo. Tem que estudar muito, porque é uma área imensa, mas eu tive uma bagagem muito boa.”

O estágio realizado durante o curso trouxe a primeira contratação, ainda de maneira inesperada. Débora conta que, naquele momento, sequer imaginava estar pronta. “Não era aquilo que eu queria, eu precisava só do estágio, porque eu ainda achava que tinha muita coisa para aprender e não tinha ainda terminado o curso”, recorda.

Depois de concluir o curso técnico em Cozinha, trabalhou em um restaurante. Mas percebeu que aquele ainda não era o lugar onde sua cozinha encontraria sentido. Foi então que decidiu voltar às feiras.

Na Feira Orgânica, conheceu o que viria a ser seu novo ambiente de trabalho: o Sertão Negro – Escola de Saberes, localizado no bairro Shangrilá, na região Norte de Goiânia. “É um espaço maravilhoso”, afirma. Ali, conhecimentos diferentes passaram a se encontrar: a cozinha, as PANCs, a alimentação orgânica, a cultura e os saberes tradicionais.

“Eu fui criando amor e vontade de estudar muito. E onde eu trabalho, o Sertão Negro, ele é envolvido com essa questão da comida orgânica, da cultura, de comer saudável. Eu acredito que, cada vez mais, eu me aprofundo mais nesses assuntos. Gosto mais de uma cozinha ancestral”, afirma.

De Goiânia para o Brasil

Da sala de aula do IFG para o mundo: Débora Santiago levou o Quebrador de Jatobá a eventos como a Bienal de São Paulo e a COP30, compartilhando saberes e sabores da cultura goiana.

O caminho iniciado em uma sala de aula no Câmpus Goiânia do IFG levou Débora para experiências que ultrapassaram as fronteiras de Goiás. Em 2025, ela participou da 36ª Bienal de São Paulo, a convite do Sertão Negro. Na Instalação Sertões, apresentou uma guloseima de jatobá, o Quebrador de Jatobá, e criou um poema-receita sobre a iguaria, posteriormente esculpido por ela em uma cerâmica. “Isso foi muito maravilhoso, muito emocionante. Depois eu tive a oportunidade que a Bienal me chamasse para fazer a oficina da receita do Quebrador de Jatobá”, destaca.

Em novembro de 2025, foi a vez de Belém, no Pará. Na COP30, Débora ministrou uma oficina de saberes tradicionais e compartilhou novamente seus conhecimentos sobre o Quebrador de Jatobá. “Eu nunca tinha ido a Belém, foi maravilhoso, a gente trabalhou muito”.

Ela também passou a marcar presença em eventos institucionais do IFG. Foi oficineira em duas edições consecutivas do Encontro de Culturas Negras, realizado no Câmpus Uruaçu do IFG, e participou de diversas feiras no Câmpus Goiânia do IFG, incluindo a programação comemorativa dos 80 anos da unidade.

A Débora do Turbante

Entre corredores, laboratórios, feiras e eventos, uma nova Débora foi surgindo. Ela mesma dá nome a essa mulher: Débora do Turbante.

“O IF me deu a oportunidade de conhecer outros caminhos. Estudar é sempre uma oportunidade de crescimento, e o IF me deu isso. Entender que, além de ser uma mulher preta, já considerada velha, ter a oportunidade que eu consegui até hoje, é surreal”, destaca Débora.

Para ela, o IFG não foi apenas o lugar onde aprendeu novas técnicas de cozinha. Foi o espaço onde descobriu novos caminhos, conheceu pessoas e percebeu que sua idade não precisava ser uma fronteira.

Por isso, recomenda integralmente o curso da EJA no Câmpus Goiânia. Para Débora, a gratuidade, a qualificação dos professores e, principalmente, a possibilidade de colocar o conhecimento em prática fazem diferença na formação.

Seu desejo agora é que o curso técnico em Gastronomia tenha continuidade na Instituição, seja como curso técnico subsequente ou como graduação. Porque, para ela, ainda há muito a aprender. E muitos caminhos a percorrer.

Débora reconhece que o IFG foi o lugar onde sua vida começou a tomar outro rumo. Mas sua história também revela que a transformação não acontece apenas quando uma porta se abre. É preciso ter coragem para atravessá-la.

“O IF é importante para mim, porque foi dele que saiu toda essa base, essa estrutura de mudança de vida. Para mim, o IF foi o divisor de águas. Eu mudei totalmente a partir do momento que eu entrei. Eu entrei, mas sabia que eu queria mudar de vida. E isso é importante. A mudança não tem que partir só da escola, tem que partir de você também, para que consiga realizar seus sonhos”, destaca Débora Santiago.

Aos 55 anos, Débora continua estudando, agora no bacharelado em Turismo no Câmpus Goiânia do IFG. Continua trabalhando, cozinhando e aprendendo. E segue acreditando que nunca é tarde para começar outra vez.

Série especial

A história de Débora Santiago é mais uma da série de reportagens especiais produzida pela Coordenação de Comunicação Social do Câmpus Goiânia, para celebrar os 20 anos do curso técnico em Cozinha/Gastronomia (EJA) na unidade. O evento celebrativo será comemorado nos dias 22 a 24 de setembro, na unidade (leia mais).

A última reportagem especial com mais uma história de vida transformada a partir do curso técnico em Cozinha/Gastronomia (EJA) do Câmpus Goiânia do IFG será divulgada na próxima semana. Aguarde!


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Coordenação de Comunicação Social do Câmpus Goiânia

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