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MULHERES MIL

Muito além de um certificado: mulheres descobrem novos caminhos para transformar suas vidas

Publicado: Quarta, 04 de Novembro de 2026, 20h22 | Última atualização em Quarta, 04 de Novembro de 2026, 21h00

Curso Microempreendedora Individual do Programa Mulheres Mil encerra ciclo de formação com histórias de coragem, empreendedorismo e construção de novos projetos

Turma certificada do curso Microempreendedora Individual
Turma certificada do curso Microempreendedora Individual

Foi na noite de quinta-feira, 29 de outubro, o último ato de um curso promissor e surpreendente, destinado a mulheres que já sabiam sonhar e que aprenderam a reconhecer suas próprias potencialidades. A Cerimônia de Certificação do curso de extensão Microempreendedora Individual, ofertado pelo Câmpus Formosa do Instituto Federal de Goiás, por meio do Programa Mulheres Mil, foi realizada no Auditório do Câmpus Nordeste da Universidade Estadual de Goiás (UEG), em Formosa. As 22 concluintes participaram das 160 horas de curso, durante cerca de quatro meses, e 16 delas compareceram à cerimônia de certificação. Para estas mulheres, a formação representa a possibilidade de autonomia financeira e de construção de novos projetos profissionais.

Apesar de cada mulher levar consigo sua própria história de vida, a conclusão do curso não é uma conquista individual, mas coletiva. “Hoje é um dia muito importante para todas nós. Ter a oportunidade de estudar, nos aprimorar e principalmente compartilhar com todas essas mulheres que estão presentes aqui, hoje, essa trajetória rumo à esperança de uma vida farta e próspera, é algo que merece celebração”, afirmou a oradora da turma, Bárbara de Sousa Fonseca.

Além do conhecimento técnico, o curso colaborou para que mulheres passassem a olhar para si mesmas como pessoas capazes de construir sonhos e enxergassem habilidades que até então não reconheciam. Para Bárbara, os professores tiveram uma participação fundamental nisso. “Agradeço os professores e professoras que tornaram possível esse curso, por terem despertado em nós algo que muitas vezes estava adormecido: a capacidade de acreditar em nós mesmas, a capacidade de sonhar, de traçar com nossas próprias mãos os caminhos que desejamos para nós”, declarou.

 

Gleice e a pequena lanchonete

A formanda Gleice Fernandes dos Santos não esperou concluir o curso para abrir o próprio negócio. Dificuldades financeiras e problemas de saúde que a impediram de manter um emprego foram decisivos para ela produzir e vender alimentos em casa e, depois, montar uma pequena lanchonete. Gleice e o marido enfrentaram a falta de dinheiro por estarem desempregados. Diante da oportunidade de alugar um ponto comercial próximo a sua casa, corajosa, ela decidiu empreender: “A gente pegou o cartão, comprou um monte de coisas no cartão ainda, não tinha nem dinheiro”. O casal contou com a ajuda do pai de Gleice, que emprestou um freezer e um balcão para darem início ao empreendimento. O curso deu a ela o incentivo de que precisava para a iniciativa.

O conhecimento foi se moldando à medida em que passava a inteirar-se mais profundamente do conteúdo do curso. Gleice já vendia alimentos, mas não sabia como calcular os custos para colocar o preço correto em seus produtos. “Eu vendia as minhas coisas e não sabia nem como é que eu ia, vendia na doida. Fazia e ‘vou vender por este preço’ e achava que estava ganhando um dinheirão, mas eu aprendi que não é bem assim”, explicou. Desta forma, estudar precificação, gestão financeira, divulgação e formalização como microempreendedor individual (MEI) contribuiu para a compreensão da gestão do seu empreendimento.

Nem sempre é fácil para mulheres se colocarem no mercado e conquistarem sua independência. Mãe de dois filhos, Gleice encontrou dificuldades pelo caminho, enfrentou problemas de saúde, voltou a estudar depois de 20 anos, mas não perdeu a esperança: “Eu pensava que não ia conseguir. Já tentei vários concursos e cursos. Chegou um dia que pensei ‘a idade e a minha saúde não vão me impedir’”. A certificação representou mais que uma conquista profissional, representou a retomada da autoconfiança em si, na sua capacidade de estudo e realização de sonhos.

 

Aparecida e o propósito social

Aparecida de Fátima, ladeada pela supervisora do curso, Janaína Fernandes, e pela apoio operacional, Francione Neris de Sousa

Diarista, mãe de quatro filhos e avó de quatro netos, Aparecida de Fátima Pereira dos Santos ainda não montou seu negócio, mas projeta algo para seu benefício futuro e de outras possíveis “mil mulheres”. Ela deseja criar uma empresa de prestação de serviços de diarista, formada por mulheres que, assim como ela, sofreram violência doméstica e que encontram dificuldades para reconstruírem sua vida.

A experiência pessoal foi a inspiração para o projeto de empresa e de vida. Aparecida vivenciou a violência doméstica e precisou se manter firme para continuar a vida “de cabeça erguida”.  “Eu sofri violência doméstica. Eu sou uma delas. Eu sofri, fui agredida, tentaram me matar mais meu filho, mas, graças a Deus, superei”, relatou a microempreendedora. Sua história inspirará a criação de uma empresa chamada Diarista Mulheres Vulneráveis, a qual ainda está no papel, aguardando capital inicial para ressignificar sua vida e abrir oportunidades coletivas.

A aprendizagem no curso influenciou também o modo como ela administra as diárias. Antes, o pagamento era recebido ao fim de cada diária. Agora, ela opta por receber o total dos seis serviços reunidos no fim do mês. A formação possibilitou a organização dos rendimentos, separando o dinheiro das despesas do dinheiro do lucro, que é guardado em uma poupança. “O professor Caio explicou: ‘Você tira esse pra guardar e esse pra gastar’”, justificou Aparecida. Foi desta maneira que ela conseguiu comprar um carro, apesar de ainda não ter habilitação para dirigir.

Não é a primeira vez que Aparecida de Fátima participa do Programa Mulheres Mil. A diarista esteve na oferta do curso Cuidadora de Idosos e, ao que tudo indica, parar de estudar está longe de seus planos. Mesmo cursando Microempreendedora Individual, ela já havia feito sua inscrição para a Qualificação Profissional em Operador de Computador na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA), que terá início em 2027, no Câmpus Formosa. “Não pensei em desistir, jamais. Sempre falava assim ‘eu vou’. Posso estar doente, mas eu vou”, concluiu.

 

Gleicielly e a maternidade solo

Gleicielly Fernandes dos Santos Nogueira faz parte das mais de 11 milhões de mães brasileiras que assumem de forma exclusiva ou majoritária todas as responsabilidades de criação dos filhos. Mesmo assim, encontrou no curso uma possibilidade de melhorar sua formação para empreender no futuro. Gleicielly tem dois filhos e enfrentou dificuldades para conciliar os estudos com a rotina de cuidados especiais diários com um deles, que demanda acompanhamento especializado e tratamentos de saúde. Ela relata que, ao participar do processo seletivo para o curso Microempreendedora Individual, seu desejo era fazer algo ligado à saúde, como o Cuidadora de Idosos, mas que se deparou com um curso diferente do que estava procurando, porém promissor. Então ela vislumbrou uma possibilidade de fonte de renda.

O apoio das colegas e da equipe multidisciplinar do curso foram fundamentais para ela continuar estudando. “Foi um pouco difícil, com os cuidados com o meu filho, com a rotina de tratamento dele. Pensei em desistir, porque não estava conseguindo conciliar”, pontuou. A persistência nasceu de uma rede que se formou a sua volta. “As colegas e a Francione tentaram me ajudar. Falaram que ficavam com o meu filho para me ajudar a assistir às aulas. Foi mais incentivo da Francione e das colegas”, contou ela. Para mulheres que se encontram na situação de Gleicielly, o acolhimento e a solidariedade, aliados a políticas públicas primárias e de amparo, fazem diferença no caminho para a formação educacional.

Na trajetória do curso, os ensinamentos sobre gestão financeira, matemática aplicada e precificação chamaram a sua atenção para a necessidade de montar um negócio bem estruturado. Por já ter experiência no comércio dos pais, ela deseja futuramente montar um comércio de produtos secos e molhados. “Hoje eu sei pôr o valor no meu serviço. Então eu não vou mais trabalhar só para fazer a rotatividade do dinheiro para pagar o que eu compro para vender. Tem que ter o lucro”.

O ponto comum entre as histórias revela algo que vai além da formação conteudista, a presença da convivência e da solidariedade, entrelaçadas no dia a dia destas mulheres, no ir e vir de cada uma delas. O companheirismo surge em momentos de crise, conforme declarou a oradora da turma: “Muitas de nós não conseguiram finalizar o curso. Mas nós, que aqui estamos, seguiremos por elas e por tantas outras que desejam profissionalizar-se, serem livres e autônomas em suas existências”.

Os desafios permanecem para todas – oportunidades de trabalho, responsabilidades familiares, igualdade de renda e reconhecimento –, mas as chances de mudar de vida investindo tempo em formação são ampliadas para mulheres que querem aprender, montar seu negócio, fazer a diferença na sociedade ou melhorar a vida da família.

 

Mulheres Mil

O curso de Formação Inicial e Continuada (FIC) Microempreendedora Individual, ofertado no Ciclo IV do Programa Bolsa Formação Mulheres Mil, do Governo Federal, disponibilizou 40 vagas disputadas por meio de sorteio entre 190 candidatas inscritas, com investimento em bolsas para as cursistas, durante 4 meses, no valor de R$ 32mil.

A proposta do curso Microempreendedora Individual foi oferecer conhecimentos complementares para que as cursistas pudessem formar uma base sólida para o seu negócio. Elas assistiram a aulas de Matemática Aplicada; Português Aplicado - Leitura e Produção de Textos; Cidadania, Relações Humanas e Direitos das Mulheres; Empreendedorismo, Cooperativismo e Economia Solidária; Informática Básica e Aplicada; Mapa da Vida e Portfólio; Empreendedorismo e Comportamento Empreendedor; Plano de Negócios; Inovação e Criatividade; Gestão Financeira; Introdução ao Marketing Digital e Técnica de Vendas; Formalização e Legislação e Empreendedorismo e Sustentabilidade.

Nos ciclos I, III e IV, o Câmpus Formosa ofertou um total de 122 vagas, distribuídas entre a primeira edição (Ciclo I) do curso Cuidadora de idosos (35), a segunda edição (Ciclo III) de Cuidadora de Idosos (47) e o atual Ciclo IV. Do total de participantes, 94 mulheres concluíram a formação, o que corresponde a 77,05%.

De acordo com números levantados pela Gerência de Pesquisa, Pós-Graduação e Extensão (Gepex) do Câmpus Formosa, o Programa Mulheres Mil ofertou cursos no Câmpus nos anos de 2012, 2013 2014, 2024, 2025 e 2026. O curso de Recreadora formou 75 mulheres em 2012 (17) e 2013 (58).  No ano seguinte, 2014 , o Câmpus ofertou três cursos distintos: Operadora de Computador (22 certificadas), Aplicadora de Revestimento cerâmico (7) e Cuidadora de Idosos (13). Dez anos depois, o Programa é retomado no Câmpus Formosa com a oferta do Cuidadora de Idosos.

Os números mostram que as mais de 200 mulheres dispostas a estudar, atendidas pelos cursos do Programa Mulheres Mil, procuravam formação para terem autonomia e buscarem melhores condições de vida para elas e suas famílias. Gleicyelly acredita na força do estudo: “Tem que voltar a estudar. Eu falo para os meus filhos que o que ninguém tira da gente são os estudos. A pessoa pode tirar qualquer coisa da gente, menos o conhecimento. É uma coisa que a gente carrega para onde for”. 

 

Coordenação de Comunicação Social/Câmpus Formosa

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